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ProteC O Martainho

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Entrevist@ndo com o enfermeiro Nuno Moreira

O Martainho, 09.02.21

ENTREVIST@ANDO

Neste ciclo de entrevistas e testemunhos de profissionais que estão na linha da frente neste combate a esta pandemia começamos com o enfermeiro Nuno Moreira, natural de Sernancelhe. Em nome de todos os atores do processo educativo do Agrupamento de Escolas Pe. João Rodrigues - Sernancelhe: 

MUITO OBRIGADO

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Nome, naturalidade, onde estudaste

Nuno Moreira, natural de Sernancelhe. Escola Primária de Sernancelhe, Escola C+S de Sernancelhe, Escola Secundaria Emídio Navarro e Escola Secundaria Alves Martins Viseu, Escola Superior de Saúde – Instituto Superior Jean Piaget de Viseu.

 

Profissão, local de trabalho, anos de profissão

Enfermeiro, Centro Hospitalar Lisboa Central Hospital Curry Cabral, Serviço de medicina 2 anos, Serviço de Infeciologia 11 anos.

 

Podias partilhar a tua experiência connosco neste tempo de pandemia?

Podia dizer que nestes tempos excecionais os meus dias são substancialmente diferentes, mas com toda a serenidade e confiança profissional, digo que não mudaram radicalmente porque trabalho num serviço de infeciologia e como se depreende lido todos os dias com doenças infeciosas o que por si só já  comporta riscos elevados e  por isso mais exigentes em termos profissionais. Por este facto fomos chamados a trabalhar na linha da frente no combate ao novo SARS-COV-2.

Não rejeito, no entanto que com o enorme número de população infetada nesta fase da pandemia, subsiste sempre alguma ansiedade face à terrível tragédia dos que necessitam de internamento e cuidados de saúde. Um avolumar enorme de doentes infetados e a constante incerteza sobre o que vou encontrar sempre que chego ao hospital para mais um turno de trabalho e que na maioria das vezes se prolonga por outro e mais outro. E o pior, a exaustão e desespero de tantos colegas que são sempre muito poucos para tantos.  

O meu empenho e entrega sempre foi este, na minha profissão tenho de estar sempre disponível para os meus doentes porque além de missão esta é uma vocação.

 

O que mais te inquieta neste tempo em que tudo parece estar a mudar?

Para mim, de certa forma, isto nunca passará. Porque ainda que passe nada será como dantes e não, não vai ficar tudo bem porque muito se perdeu, desde os nossos familiares e amigos que partiram, e ainda não sabemos se os doentes curados não vão desenvolver outras patologias por terem sido infetados.

Vamos ter de lidar com novas realidades novas formas de nos relacionarmos e interagir estas serão provavelmente as mudanças mais imperiosas.

O mundo praticamente parou e a esperança deu lugar ao desespero de muitos de nós, teremos que ser resilientes e acreditar que vamos conseguir superar estes tempos.

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O nosso país estava preparado para esta situação pandémica?

Creio ser entendimento geral que nem o nosso país, nem nenhum outro estava preparado para esta situação que colocou uma vez mais em questão a fragilidade da condição humana, agora é sabido que as sociedades ocidentais ditas mais evoluídas têm objetivamente melhores condições para superar esta pandemia, que a não ser rapidamente debelada no mundo inteiro pode até colocar em causa a segurança global e os valores civilizacionais do homem.

 

Qual é a sensação de salvar pessoas?

A sensação é basicamente a do dever cumprido. Foi isso que jurei fazer e é isso que faço em prol do doente e sempre no pressuposto de honrar a minha profissão.

 

Tens uma situação vivida profissionalmente que te tenha emocionado/marcado? 

Todos os nossos doentes são casos clínicos únicos e por si só histórias verdadeiras e independentes. Quando começamos a receber doentes que por uma qualquer razão  se assemelham a pessoas que nos são mais próximas, ou porque são colegas de trabalho, ou tão só nos apercebemos que podíamos ser nós exatamente naquela situação, ou porque simplesmente sentimos uma empatia  de real preocupação e carinho pelo próximo, é como se levássemos um murro no estômago. E isso aconteceu comigo, muitas vezes. Somos treinados para lidar com isto, desenvolvemos defesas afastamentos emocionais, mas é impossível não sentirmos, perante tantos casos de pessoas que chegam até nós relativamente bem e que de um momento para o outro dependem unicamente da nossa entrega e conhecimento e que são levados para uma unidade de cuidados intensivos onde só com ajuda da tecnologia ao serviço da medicina conseguem sobreviver, ou seja: delegar numa máquina aquilo que nos é inato e que fazemos sem nos apercebermos: Respirar. Isto é algo que marca. Marcou-me também, um doente ainda jovem e saudável que foi internado na enfermaria apreensivo pela situação mas estável sem outras patologias ou comorbilidades associadas que me pediu ajuda pelo receio que tinha de não voltar a  ver os filhos com uma enorme e profunda tristeza no olhar, de repente sem aviso ou qualquer indicação descompensou e teve de ser imediatamente ventilado e chegou mesmo a estar em estado crítico. Porém, conseguimos reverter a situação, o estado do doente teve progressos incríveis, teve alta, foi para casa onde se encontra estável e confiante e onde continua a ser seguido. Também quero referir o caso dum colega enfermeiro que entrou no serviço bastante debilitado e que por ser profissional de saúde se deixou levar aos limites e cuja vida agora dependia de nós, ele que levou a vida toda a cuidar dos outros, isto mostra-nos que todos temos que estar uns para os outros, nesta situação todos somos poucos e percebermos a ânsia e a intranquilidade do doente que tantas vezes infelizmente passa a ser desespero e partida. Não se desenvolve imunidade a isto...

 

Que conselhos podes dar aos nossos jovens Sernancelhenses?

 Basicamente que tenham em conta as diretrizes da Direção Geral da Saúde que se mantenham informados acerca da evolução da situação, para não facilitarem considerando que não estamos livres de nova vaga de infeções como a que acontece presentemente no concelho vizinho de Aguiar da Beira. Este não é um vírus apenas do agora, será um vírus para sempre, apesar da vacinação já em curso, por isso temos de nos adaptar adotando novos comportamentos para o futuro. Apelo por isso aos jovens da minha terra que cumpram e ajudem a fazer cumprir junto de toda a população principalmente os socialmente mais excluídos, os mais vulneráveis e os idosos as regras básicas já amplamente difundidas do uso da máscara higienização das mãos e distanciamento social. Todos somos chamados a colaborar para que o nosso concelho seja um exemplo das boas praticas sanitárias.

 

Sentes-te um “herói da nação” por estares na linha da frente nesta guerra contra um vírus que ainda não é totalmente conhecido?

 Heróis somos todos nós, qualquer que seja o lado onde nos encontremos da barricada porque só em sintonia e cooperando pudemos fazer com que esta situação seja erradicada e assim, se todos dermos o melhor para o bem comum seremos certamente dignos do respeito e consideração das gerações futuras.

Que o nosso heroísmo seja a capacidade enquanto povo de nos superarmos desta grande adversidade e se possa seguir em frente no respeito que nos devem merecer tantos milhares de portugueses que perderam a batalha do Covid 19.

 

Como achas que a população olha para o excelente trabalho que todos os que estão na linha da frente estão a desenvolver?

 A população tem aplaudido o nosso esforço é um facto. Aplauso esse que nós muito prezamos. São estas demonstrações de apoio e carinho que nos unem mais nesta batalha, para conseguirmos vencer/ultrapassar esta guerra dos nossos novos tempos. A população sentiu que podia contar connosco, mas acima de tudo foi consciente numa primeira fase e tiveram noção da gravidade da situação, agora é imperioso que se mantenha esse apoio consubstanciado no cumprimento das diretrizes oficiais não facilitando comportamentos de risco que levam a milhares de novos casos de infeção e centenas de mortos todos os dias  sobrecarregando hospitais e profissionais de saúde.

 

Qual é o sentimento que tens neste momento de desgaste físico e psicológico que estás a viver?

O estado de espírito é sempre de apreensão e temor pelo desconhecido.

Houve vários momentos de comoção. Não posso negar que houve dias em que eu tinha que ser forte e referência para alguns colegas no serviço onde trabalho, mas quando chegava a casa dava por mim perdido e exausto, afundado nas minhas angústias a pensar em como estariam os meus pais e familiares tão longe de mim e revia-os naqueles doentes que lutavam pela vida numa cama de hospital.

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Neste tempo de pandemia, qual é o valor que sobressai na nossa sociedade?

 O valor que deverá sobressair sempre será o valor inalienável da vida, que não venha a ser necessário escolher entre quem vive e quem morre. O valor da solidariedade em geral tem sido aquele que mais tem unido os portugueses.   

 

Tens receio/medo de lidar todos os dias com este vírus?

No início foi complicado porque eramos muito poucos para tantos doentes, e não fosse a nossa condição de profissionais qualificados deste meu serviço de infeciologia ainda seria mais difícil, o descanso era pouco e por vezes tínhamos que assegurar como já referi mais um turno e voltar ao serviço, ora porque chegavam mais doentes ora porque os nossos colegas tinham que prestar assistência em casa aos filhos ou familiares mais próximos também eles apanhados no túnel negro do Covid 19. Trabalhavam-se 8 a 16 horas seguidas no contexto referido e o tempo que nos restava era tão pouco para o descanso necessário. Só pensávamos como seria o dia seguinte, qual a evolução da pandemia, a capacidade de resposta adequada e se algum de nós ia também passar para o outro lado da trincheira nesta luta sem quartel onde todos eramos alvos e ninguém estava a salvo duma potencial infeção. Foi duro e muitíssimo penoso e vai continuar a ser…

 

Enfermeiro Nuno Moreira

um testemunho incrível de quem está na linha da frente

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